Brasil XIV

Bolsonarismo racha: Eduardo ataca “lei antimasculina” enquanto Flávio vota a favor de lei feminista no Senado

O clã Bolsonaro rachou ao vivo na votação da Lei da Misoginia no Senado Federal. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) votou a favor do projeto que equipara a misoginia ao racismo — aprovado por 67 votos a zero —, seu irmão Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atacou a proposta no X, chamando-a de “antinatural e agressivamente antimasculina”.

O que aconteceu

O Senado aprovou por unanimidade, na segunda-feira (24/03), o PL 896/2023, que inclui a misoginia como crime de preconceito equiparado ao racismo. A votação de 67 a 0 não deixou espaço para dissidência no plenário — mas fora dele, a guerra já estava declarada.

Um dia antes da votação, Eduardo Bolsonaro publicou no X um ataque direto ao projeto, acenando para a chamada “machosfera Red Pill” e classificando a lei como uma “aberração”. Flávio, por sua vez, votou a favor sem fazer declaração pública — e foi poupado por aliados de Eduardo nas redes sociais.

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) já se posicionou contra o projeto e prometeu articular a derrota da proposta na Câmara dos Deputados, onde o texto segue para votação.

Flávio é de direita? Que direita é essa?

A pergunta que a própria base bolsonarista precisa responder: que tipo de político de direita vota a favor da lei mais progressista já aprovada no Senado brasileiro? Flávio Bolsonaro — filho do ex-presidente que construiu sua carreira atacando pautas identitárias — acaba de carimbar o voto no projeto que a esquerda comemora como a maior vitória legislativa feminista do país. Não há malabarismo retórico que esconda a contradição: ou Flávio abandonou os princípios que sustentam a direita conservadora, ou nunca os teve de verdade.

Pré-candidato à Presidência em 2026, o senador carrega uma rejeição de 23% entre mulheres — contra apenas 9% entre homens. A votação ocorreu apenas três dias após um discurso no Nordeste focado no eleitorado feminino. Votar “woke” para reduzir rejeição é pragmatismo eleitoral puro — e a base que elegeu o pai sabe disso.

Análise Brasil XIV

O que se viu no Senado não foi apenas uma votação — foi a exposição pública de uma fratura que o bolsonarismo tenta esconder desde 2024. Flávio joga para o centro visando 2026; Eduardo se agarra à base radical que fez o pai presidente. Os dois caminhos são incompatíveis, e a Lei da Misoginia apenas acelerou a colisão.

Nikolas Ferreira, ao prometer barrar o projeto na Câmara, se posiciona como o herdeiro da ala ideológica — e empurra Flávio ainda mais para o isolamento dentro da própria família política. O bolsonarismo está em guerra consigo mesmo, e dessa vez o campo de batalha é o feminismo. A pergunta que fica: se Flávio vota como a esquerda quando precisa de voto feminino, o que sobra da direita que ele diz representar?


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