Brasil XIV

82% dos prefeitos do Brasil estão na mira do Livro Amarelo de Renan Santos

Renan Santos, presidente do Partido Missão e pré-candidato à Presidência, defende uma das ideias mais radicais do debate eleitoral de 2026: prefeito que não bater metas objetivas de educação, saúde, segurança e saneamento perde os direitos políticos — e seu partido fica inelegível junto. A proposta está no Livro Amarelo, manifesto programático do Missão lançado por Renan e pelo filósofo Paulo Cruz. O nome é provocação: vem do “Livro Vermelho” de Mao e do “Livro Verde” de Gaddafi. A intenção é boa. O desenho, perigoso.

O que está em jogo: cassação por meta não cumprida

A proposta foi sintetizada em entrevistas de Renan à Gazeta do Povo, ao Poder360 e em material do próprio Partido Missão: avaliar prefeitos e governadores por critérios objetivos — educação, saneamento, IDH, saúde, segurança — e vincular tanto o acesso a recursos quanto os direitos políticos do gestor ao cumprimento das metas. Para estados, Renan fala em prazo de 8 anos para reverter a situação antes da sanção. O exemplo recorrente em suas falas é didático: “Um prefeito do interior do Nordeste que não melhorasse os indicadores de saúde, segurança, educação ou aumentasse a cobertura de esgoto perderia os direitos políticos.”

Não é PEC protocolada nem projeto de lei. É programa partidário — um compromisso de campanha que viraria PEC para alterar a Lei das Inelegibilidades (LC 64/1990) caso Renan chegasse ao Planalto. O conteúdo completo da proposta está em seis fascículos físicos vendidos a R$ 589 a R$ 3.589 pelo site oficial — opacidade comercial que, por si só, já mereceria um debate à parte. Mas o que está em discussão pública pelas declarações do próprio Renan é o suficiente para a Brasil XIV cravar uma posição: a ideia parte de um diagnóstico legítimo, mas, do jeito que está formulada, é uma armadilha contra a oposição municipal.

A intenção é justa

Vale começar reconhecendo: o Brasil tem 5.570 municípios, e a má gestão municipal é problema real, crônico e silencioso. Prefeitos que não entregam saneamento, escola decente ou unidade de saúde básica deveriam, sim, ser politicamente responsabilizados — hoje, a única punição é não se reeleger, e mesmo isso costuma falhar porque o eleitor de cidade pequena depende politicamente do mesmo cabo eleitoral que mandou o prefeito ruim. Renan Santos acerta no diagnóstico: o sistema atual é frouxo demais com a incompetência municipal. O problema não está na intenção. Está na engenharia federativa que a proposta ignora.

A armadilha técnica: 82% dos municípios não controlam o próprio caixa

O dado que precisa estar gravado em destaque vermelho na primeira página do Livro Amarelo é este: 82% dos municípios brasileiros dependem de transferências para 75% ou mais de sua receita. Quase metade — cerca de 2.478 cidades — depende 90% ou mais. A média nacional de dependência chega a 80%. Em municípios com até 10 mil habitantes, o FPM sozinho representa 47,8% da receita corrente, segundo dados da CNM consolidados pelo Tesouro Nacional. Em sete a cada dez municípios brasileiros, o FPM é a principal fonte de dinheiro.

Traduzindo para a cabeça de quem não vive de planilha fiscal: na maior parte do Brasil, o prefeito é gerente de filial, não dono. Três quartos do dinheiro que entra na prefeitura vêm de duas torneiras — uma controlada pelo governador (cota-parte do ICMS, convênios estaduais, cofinanciamento setorial) e outra controlada pelo presidente da República (FPM, emendas parlamentares, convênios federais, programas dos ministérios). Se as duas torneiras fecham, não há prefeito que entregue indicador. E elas fecham, sim — por motivo político — quando os donos delas são adversários.

A armadilha política: três casos para Renan responder

Caso 1 — Doria cancela R$ 143 mi de 49 prefeituras adversárias (jan/2019)

Em sua primeira semana como governador de São Paulo, João Doria (PSDB) cancelou 49 convênios assinados pelo seu antecessor, Márcio França (PSB), nos dias finais da gestão anterior. Total bloqueado: R$ 143 milhões em obras de pavimentação, drenagem e contenção de enchentes. As cidades mais penalizadas foram as que apoiaram França: São Vicente perdeu R$ 47,7 milhões; Carapicuíba, R$ 20 milhões; Guarujá, R$ 11,9 milhões. O governo Doria alegou “requisitos técnicos não cumpridos” — o eufemismo administrativo padrão para retaliação política. Geraldo Alckmin, ex-governador do mesmo PSDB, acusou publicamente Doria de “comprar prefeitos” — ameaçar reter recursos para forçar mudanças partidárias. Pergunta para Renan: se a sanção do Livro Amarelo já existisse, o prefeito de São Vicente seria cassado por não ter feito a obra que Doria cancelou?

Caso 2 — Castro corta cofinanciamento de saúde de Garotinho (2025)

Em junho de 2025, o prefeito Wladimir Garotinho denunciou publicamente, em entrevista ao Tribuna do Norte Fluminense, que o cofinanciamento estadual para os hospitais de Campos dos Goytacazes havia sido reduzido a zero pelo governo Cláudio Castro (PL). Citação literal do prefeito: “O cofinanciamento estadual para o custeio dos nossos hospitais públicos foi reduzido a ZERO, isso porque quem manda de fato no governo estadual do Rio é meu adversário local.” O governo Castro nega — mas a denúncia escancara o mecanismo: cofinanciamento estadual de saúde é discricionário; pode ser zerado por canetada. Pergunta para Renan: com hospital sucateado por boicote estadual, o prefeito que falhar no indicador de saúde merece perder os direitos políticos?

Caso 3 — Couto bloqueia R$ 730 mi para 16 cidades (mar/2026)

Em março de 2026, o governador interino do Rio, Ricardo Couto, bloqueou R$ 730 milhões em recursos do Fundo Soberano destinados a 16 municípios fluminenses para pavimentação e contenção de encostas — recursos autorizados por Castro no apagar das luzes. Justificativa oficial: “não fui informado”. Resultado prático: 16 prefeitos perderam, da noite para o dia, recursos já aprovados para obras de saneamento e infraestrutura urbana — exatamente o tipo de obra que entra como métrica nos indicadores que Renan quer punir. Pergunta para Renan: se a obra parou porque o governador cortou o repasse, a culpa é do prefeito ou do governador?

E quando é o presidente que sabota?

O caso mais simbólico é o da Operação Carro-Pipa. Entre novembro e dezembro de 2022, logo após o segundo turno em que o Nordeste votou massivamente em Lula, o Ministério do Desenvolvimento Regional do governo Bolsonaro interrompeu repasses para a operação que abastecia 1,6 milhão de pessoas no semiárido nordestino. Apenas R$ 9 milhões disponíveis dos R$ 41 milhões necessários. Os atingidos foram Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Bahia. O senador Renan Calheiros classificou publicamente a suspensão como “vingança contra nordestinos que votaram em Lula” — e a Aos Fatos verificou e confirmou que a interrupção foi do governo Bolsonaro, não do governo entrante. Os atingidos eram exatamente o público-alvo declarado do Livro Amarelo: prefeitos de cidades pequenas do interior do Nordeste, com alta dependência de programas federais. Por meses, esses prefeitos não tiveram como entregar água potável à população. Pelo Livro Amarelo, vários deles — e seus partidos — estariam hoje inelegíveis por falha em indicador de saúde e saneamento.

O mecanismo se repete em escala industrial. Estudo da CNM mostra que decisões dos Três Poderes federais já tiraram R$ 73 bilhões/ano dos municípios — apenas a LC 194/2022, que reclassificou combustíveis e energia como “essenciais” para reduzir ICMS, custou R$ 22,06 bilhões em cota-parte municipal. O texto da reforma tributária, segundo a mesma CNM, pode tirar mais R$ 40 bilhões/ano. E há a arma seletiva por excelência: as emendas parlamentares (RP-9, RP-8) — liberadas a aliados, retidas para opositores. Em 2023, Lula empenhou 79% mais emendas que Bolsonaro no mesmo período. Em 2024, R$ 13,88 bilhões em quatro meses. Quem recebe e quem não recebe segue critério partidário, não técnico. Áudios vazados de prefeitos baianos em 2023 — incluindo apoiadores de Lula — afirmavam estar “com pires na mão pedindo esmola ao governo Lula” e que “não tinham tantas dificuldades com Bolsonaro”. A sabotagem cruza os partidos. É arquitetura, não acidente.

A inversão perversa: punir o ente mais frágil pela falha dos mais fortes

Imagine o cenário concreto, e não fica difícil: município pequeno do Nordeste, prefeito de oposição ao governador (que retém ICMS e cofinanciamento de saúde) e ao presidente (que retém emendas e suspende programa de água). Esse prefeito não bate meta de saúde — porque o hospital municipal foi asfixiado pelo estado. Não bate meta de saneamento — porque a obra de esgoto foi cancelada pelo governador interino. Não bate meta de educação — porque o FPM caiu por desoneração federal. Pelo Livro Amarelo, esse prefeito perde os direitos políticos. E o partido dele perde o direito de disputar a próxima eleição naquele município. Vagam-se de uma só vez o cargo e a única alternativa partidária à máquina que sabotou o município. A meta vira instrumento. O critério “objetivo” vira álibi para um expediente que, sem o Livro Amarelo, exigiria um processo de cassação trabalhoso na Câmara Municipal ou na Justiça Eleitoral.

É a inversão perversa do princípio do mérito: o ente “punível” pelo Livro Amarelo é exatamente o ente que a União pode esvaziar por canetada — e que o estado pode estrangular por discricionariedade orçamentária. O prefeito vira refém de duas vontades políticas que ele não controla, num sistema em que o “indicador objetivo” funciona como auditoria mas a torneira do recurso continua subjetiva. É como cobrar metas de venda de um vendedor a quem o gerente nega catálogo, vitrine e telefone — e depois demiti-lo por baixa performance.

O que faltou no desenho

Para a proposta não virar arma de extermínio da oposição municipal, o Livro Amarelo precisaria responder antes a perguntas que nem Renan, nem Paulo Cruz, nem o Partido Missão tornaram públicas: (1) Como ajustar a meta pelo nível de transferência efetivamente recebida — descontando convênios cancelados, emendas retidas e cofinanciamentos zerados? (2) Como punir simultaneamente o governador ou o presidente que provadamente sabotaram um prefeito adversário antes de avaliá-lo? (3) Como impedir que os indicadores escolhidos sejam exatamente aqueles que mais dependem de recurso de fora (saúde e saneamento), em vez dos que dependem mais de gestão local (transparência, organização administrativa, resposta a ouvidoria)? (4) Por que a sanção da inelegibilidade — uma das mais duras que existem em uma democracia — vai cair sobre o prefeito do município de 8 mil habitantes, e não sobre o ministro que negou a habilitação do programa federal?

Sem responder a essas quatro perguntas, o Livro Amarelo não é programa de meritocracia federativa. É vacina ideológica vendida a R$ 589 que produz exatamente o sintoma que diz combater: concentração de poder político — agora não mais nas mãos de oligarquias municipais, mas nas mãos do governador e do presidente que decidem qual prefeito sobrevive ao próximo ciclo eleitoral.

A pergunta que fica

Se a sanção do Livro Amarelo já existisse na eleição de 2024, quantos prefeitos do Nordeste estariam hoje inelegíveis por não terem batido metas com recursos que o governo federal anterior reteve por motivo político? Quantos prefeitos paulistas perderiam direitos políticos por obras que Doria cancelou em 2019 — quando eles sequer tinham sido eleitos? Quantos prefeitos fluminenses, agora em 2026, ficariam inelegíveis pelos R$ 730 milhões que Couto bloqueou ontem?

O Partido Missão se vende como a alternativa “limpa” da direita, contra um sistema corrompido pelo Centrão e pelas oligarquias estaduais. A bandeira é justa. Mas a primeira proposta de impacto que apresenta ao país fortalece exatamente quem o Missão diz combater: governadores e presidentes da República, que ganhariam, com a chancela do Livro Amarelo, um instrumento legal para cassar prefeitos adversários sem precisar bater à porta do TSE. Se Renan Santos quiser que sua proposta seja levada a sério como projeto de país, e não apenas como manifesto vendido em fascículo, terá que voltar à mesa de redação. A intenção é boa. O desenho é, por enquanto, o oposto do que prega.


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