O Movimento Brasil Livre nasceu em 2014 como um coletivo apartidário de jovens indignados contra a corrupção petista. Doze anos depois, em março de 2026, seu fundador Renan Santos chama Flávio Bolsonaro de “ladrão” em entrevista ao Poder360, enquanto Kim Kataguiri — o rosto mais conhecido do MBL — declara que o Partido Missão “vai substituir o bolsonarismo, inevitavelmente”. No meio do caminho, uma trilha de ex-membros arrependidos, mandatos cassados, acusações de nepotismo e ataques calculados do youtuber Nando Moura. Os fatos, vistos em sequência, levantam uma pergunta incômoda: tudo isso é coincidência — ou é estratégia?
Os que saíram — e o que dizem
A lista de ex-membros do MBL é longa e cada saída conta uma história. Fernando Holiday, co-fundador e primeiro vereador negro eleito pelo PSDB em São Paulo, saiu em janeiro de 2021. Queria pautar combate ao aborto e causa LGBT — temas que o MBL se recusava a abraçar. Migrou para o PL ao lado de Bolsonaro, declarando-se “o filho pródigo” da direita. Lucas Pavanato seguiu o mesmo caminho e foi mais enfático: publicou no X que entrar no MBL foi “o maior erro da minha vida”. Hoje, pelo PL, é o vereador mais votado de São Paulo.
Rubinho Nunes, co-fundador e advogado do movimento por oito anos, rompeu em outubro de 2022 por discordar do voto nulo defendido pelo MBL no segundo turno. Queria apoiar Bolsonaro e Tarcísio. Em maio de 2025, teve o diploma cassado e ficou inelegível por oito anos — por divulgar laudo falso contra Guilherme Boulos.
Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, era o maior rosto midiático do MBL. Caiu em março de 2022 após áudios sexistas sobre mulheres ucranianas. Mandato cassado por unanimidade na Alesp. Inelegível até 2030. Gabriel Monteiro saiu em 2019, queria apoio mais explícito a Bolsonaro. Elegeu-se vereador mais votado do Rio — até ser cassado por assédio sexual e preso. Saiu da prisão em março de 2025 com tornozeleira eletrônica.
Em setembro de 2024, o moderador dos grupos digitais do MBL, Willian Tavares, saiu denunciando tolerância ao nazismo nos canais internos do movimento. Um amigo judeu ortodoxo que moderava as redes de Kataguiri fez o mesmo. O Intercept publicou reportagem investigativa em dezembro de 2024 com gravações e prints.
Nando Moura: o ataque que ninguém pediu — ou alguém pediu?
Em 2024, o youtuber Nando Moura — 3,5 milhões de inscritos e uma das vozes mais barulhentas da direita digital — publicou o vídeo “MBL – Missão Mamata”. A acusação: o MBL teria destinado R$ 84.036 do fundo eleitoral a uma empresa do irmão de Renan Santos, a AS Gestão e Produções Artísticas LTDA, de Alexandre Santos. Os dados de CNPJ são públicos e verificáveis.
A reação do MBL foi reveladora. Em vez de responder às acusações com transparência, obteve liminar na 3ª Vara Cível de Cotia para remover mais de 40 vídeos de Nando Moura. A liminar foi posteriormente suspensa. O MBL perdeu.
O episódio alimenta uma leitura provocativa: os ataques de Nando Moura ao MBL funcionam, na prática, como blindagem. Enquanto a base bolsonarista se concentra em atacar (ou defender do ataque de) Nando Moura, ninguém questiona as movimentações estratégicas do Partido Missão. É uma cortina de fumaça involuntária — ou perfeitamente conveniente.
A cronologia que incomoda
Vistos isoladamente, os fatos parecem orgânicos. Vistos em sequência, o padrão é difícil de ignorar:
- 2014: Fundação do MBL — Renan Santos, Kim Kataguiri, Fernando Holiday
- 2018: MBL apoia Bolsonaro no segundo turno
- 2019: Ruptura com o bolsonarismo começa. Nando Moura chama bolsonaristas de “gado imundo”
- 2021: Holiday e Pavanato saem para o PL — levam público bolsonarista mas deixam a estrutura do MBL intacta
- 2022: MBL defende voto nulo no segundo turno. Arthur do Val cassado. Rubinho Nunes sai
- Novembro de 2023: MBL anuncia criação do Partido Missão no 8º Congresso Nacional
- 2024: Nando Moura publica “Missão Mamata”. MBL tenta censurar 40+ vídeos na Justiça. Escândalo de nazismo nos grupos internos
- Novembro de 2025: TSE aprova o Partido Missão por unanimidade — 577.999 assinaturas válidas
- Março de 2026: Kataguiri se filia ao Missão. Renan Santos chama Flávio de “ladrão”. Missão lança pré-candidatura à Presidência
Do coletivo apartidário de 2014 ao pré-candidato à Presidência em 2026. De aliado de Bolsonaro a inimigo declarado. De movimento de rua a partido com 577 mil assinaturas. Cada ex-membro que saiu levou público bolsonarista — e cada ataque externo (inclusive de Nando Moura) desviou atenção das movimentações internas. Coincidência?
O MBL de hoje: quem ficou e o que querem
Renan Santos nunca exerceu mandato eletivo — mas é presidente do MBL e do Partido Missão, e pré-candidato à Presidência da República em 2026. Kim Kataguiri é o único deputado federal do partido. Guto Zacarias ocupa uma cadeira na Alesp. Amanda Vettorazzo foi eleita vereadora em São Paulo em 2024 com mais de 40 mil votos. Ao todo, o Missão conta com 13 vereadores eleitos pelo país e uma vice-prefeita no interior de SP.
O discurso oficial é claro: “direita não-bolsonarista”. Em agosto de 2025, romperam com Tarcísio de Freitas. Em março de 2026, declararam guerra aberta ao bolsonarismo. Renan Santos admitiu publicamente o afastamento do liberalismo inicial do MBL, adotando postura mais estatista.
A pergunta que os fatos deixam no ar: tudo isso — as saídas, as brigas, os ataques, a criação do partido, a candidatura — foi um processo orgânico de amadurecimento político? Ou foi, desde o início, um plano para construir uma máquina eleitoral que chegasse à Presidência em 2026?
Os fatos estão aí. A conclusão é sua.
